Artes e Cultura

José Luís Peixoto

José Luís Peixoto
Nascido em 1974, na pequenina aldeia alentejana de Galveias, José Luís Peixoto é um dos mais prestigiados escritores portugueses de sempre. Em 2001, o antigo Professor de Inglês ganhou o Prémio Saramago, catapultando-o para um merecido reconhecimento no mundo literário, a nível mundial. .

A sua escrita é profundamente influenciada pelas suas raízes, memórias e laços familiares. A sua prosa é reveladora de uma fascinante identidade poética, um compromisso com a beleza e com as intrincadas profundezas do mundo interior.

O trabalho de José Luís Peixoto é muito multifacetado: romances, poesia e literatura de viagens. Ele foi, na verdade, um dos poucos autores a viajar várias vezes para a Coreia do Norte, fazendo o relato das suas experiências neste verdadeiro território de secretismo, na obra Dentro do Segredo - Uma Viagem na Coreia do Norte.

Abrantes, Constança e Sardoal

Publicado em 2022 pela editora Quetzal, a obra Onde consiste numa homenagem poética em prosa à geografia de Abrantes e às localidades vizinhas Constança e Sardoal, muito acarinhadas pelo autor.

Esta viagem sentimental através de 62 lugares plenos de significado envolvem desde logo o leitor, num belo cruzamento de memória, deslumbramento e sentido de pertença.

A alma feminina de Abrantes

Abrantes é conhecida como "o coração de Portugal". feita de ouro (“aurantes”) e de flores, Abrantes está envolta pelo rio Tejo que de forma tão clara define o espírito do local. E também os seus sabores.

Abrantes é também uma senhora. A cidade possui uma incessante alma feminina. Há flores em todo o lado. Cada esquina de Abrantes é a desculpa perfeita para mais um ponto floral. Simplesmente brotam, crescendo de forma espontânea nos locais mais improváveis. Uma das flores mais comuns é a papoila, conhecida em Portugal como "a rosa inglesa".

Abrantes tem uma alma contemplativa. A cidade tem miradouros e jardins opulentos, habitados por espécies botânicas exóticas. Há ainda uma árvore brasileira com um enorme ventre que se assemelha a uma mulher grávida. Abrantes é uma cidade que nos abraça como só as mães o fazem. Abrantes é uma cidade que nos leva pela mão e nos mostra a beleza desarmante da paisagem natural envolvente. 

Abrantes tece-se com amor. A produção de azeite desempenhou sempre um papel primordial na região de Abrantes . As mulheres eram as responsáveis pela tecelagem das "seiras" e dos "capachos", filtros para a prensa da azeitona. A única fábrica que produzia as "seiras" e os "capachos" era propriedade de um senhor chamado Aristóteles. 

A primeira mulher primeira-ministra em Portugal, Maria de Lurdes Pintasilgo, nasceu em Abrantes. Assumiu funções no dia 1 de Agosto de 1979, sendo também a primeira mulher a concorrer à Presidência da República em 1986. Uma política visionária à frente do seu tempo.

Em 1897, Duarte Ferreira criou a primeira forja na pequena aldeia do Tramagal, a 5 km de Abrantes. Este seria o início da fábrica metalúrgica com o nome do seu fundador que operou uma verdadeira revolução social. O produtor icónico da Berliet-Tramagal que chegou a empregar mil trabalhadores é um exemplo eloquente de empreendedorismo com preocupações sociais. E as mulheres estavam na linha da frente dos trabalhos de cablagem. Only for the brave !

Duarte Ferreira era conhecido na aldeia do Tramagal como um homem especialmente estranho. Caminhava muito rápido, sempre apoiado no seu guarda-chuva. A sua pressa era o reflexo da sua visão pioneira. Com olhos no futuro.

“A vida em si é ferro fundido.”
José Luís Peixoto, Onde

No recentemente aberto MIAA - Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes, renovado pelo prestigiado arquitecto Carrilho da Graça, os visitantes podem contemplar a escultura de Nossa Senhora a dar o peito ao bebé Jesus. Uma imagem nada comum que exulta de humanidade.

Abrantes enfeitiça-nos. Os seus cafés charmosos e praças coloridas, os seus jardins opulentos, os seus museus únicos e marcos históricos, os seus restaurantes acolhedores e a vista incontornável sobre o Tejo e as vizinhas Sardoal e Constância e a sua alma feminina. Repleta de poesia e de doçura. Tal como uma flor delicada. 

O local onde ainda conseguimos ouvir o som do silêncio.

“O passado envolve-nos, alimenta-nos, justifica-nos.”
José Luís Peixoto, Onde

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