A história da cutelaria nas Caldas da Rainha e em Alcobaça
A exploração e trabalho do metal remonta aos primeiros assentamentos humanos. O fogo, para além de aquecer, iluminar, cozinhar e proteger, ganhou uma nova função: a fundição. Esta tecnologia permitiu a criação de novos artefactos, que por sua vez, terão fomentado a primeira revolução agrícola.
Escavações arqueológicas levadas a cabo no sítio do Lombo do Ferreiro - Turquel, Alcobaça, na década de 80, revelaram achados arqueológicos que comprovam a existência de uma importante atividade metalúrgica associada à Idade do Ferro, imprimindo-se neste local, uma profunda genética metalúrgica que se regista até aos nossos dias.
A cutelaria artesanal resgatou a sabedoria ancestral e tem vindo conquistar um público que aprecia o exemplar único – a cutelaria de autor – em que o cuteleiro tem como mote a produção recorrendo à arte original de domar o fogo.
A forja, o martelo e a bigorna são os protagonistas e o cuteleiro é o mestre. E desta arte resulta todo um glossário de cortantes: faca de chef, faca de matança, faca de petisco, navalha cabriteira, navalha bandido, canivete de marinheiro, canivete de enxertia, canivete capa-grilos, e a mais portuguesa de todas, a navalha caneças.
É procurada tanto pelos chefes de cozinha de renome como por quem procura uma faca de qualidade. Também a tradicional navalha e o canivete continuam a ser utensílios versáteis e emblemáticos que cabem em qualquer bolso.
A origem da indústria da cutelaria nas Caldas da Rainha e em Alcobaça despoletou ao longo de várias décadas uma querela entre a freguesia da Benedita e de Santa Catarina.
Do legado das oficinas de navalheiros à mestria das indústrias cuteleiras, potenciadas há sessenta anos, o cluster Santa Catarina – Benedita é presentemente sinónimo de sucesso e de contemporaneidade.
Segundo Fernando Maurício - estudioso da Benedita, há ligações entre a freguesia de Nossa Senhora da Encarnação - actual Benedita, e o aparecimento da primeira oficina de cutelarias da região.
Numa investigação que recua até ao século XVIII destacam-se duas figuras centrais na história desta indústria: os irmãos Joaquim e António Polycarpo.
Joaquim Polycarpo, nascido em 1796, foi mestre responsável por vários dos artesãos, tanto na Benedita como em Santa Catarina. Ele terá partido ainda na adolescência para Lisboa onde, na companhia do irmão, António Policarpo, terá recebido formação na arte da cutelaria.
A cutelaria era, à época, uma arte recente em Portugal: apenas depois do terramoto de 1755, o Marquês de Pombal terá feito chegar do estrangeiro mestres de várias artes para ajudar a reconstruir o comércio do país. Um deles, um francês de nome Charnière, estabeleceu-se em Lisboa na Rua Formosa e aí instruiu vários jovens de todo o país.
Apenas dois dos seus aprendizes acabariam por resistir no ofício, sendo dois deles os irmãos António Policarpo e Joaquim Policarpo, segundo nota biográfica de Pereira de Souza de 1856.
Os destinos dos dois irmãos haveriam de ser no entanto bastante distintos: Joaquim haveria de regressar à sua região natal para aí se fixar: foi em Mata de Baixo, actual concelho de Rio Maior, que o mestre terá formado muitos dos futuros artesãos que se disseminaram pela região.
Irmão mais velho de Joaquim, António Policarpo haveria de seguir um destino diferente, vivendo grande parte da sua vida em Lisboa onde se estabeleceu. Em 1824 deixou a vida militar ativa, dedicando-se “exclusivamente à fundação do seu estabelecimento que iniciou em novembro de 1825” segundo Pereira de Sousa, numa nota biográfica de 1856.
Seria esta a data da fundação de uma casa de cutelaria que ainda hoje subsiste em Lisboa com o nome do seu fundador: A Casa Policarpo. O seu trabalho era reconhecido nacional e internacionalmente. Era a Casa Policarpo quem fornecia a faculdade de medicina do reino bem como “todos os hospitais civis e militares”, bem como a escola médico-cirúrgica de Lisboa.
A excelência dos seus produtos para as áreas de veterinária, cirurgia ou jardinagem, valeu-lhe a medalha de primeira classe na exposição nacional de 1849 e de segunda classe com menção honrosa na exposição universal de Londres em 1851.
Para além dos prémios a reputação de António Policarpo e da sua casa levava grandes nomes da cena cultura até ao seu estabelecimento.
Em “António Maria”, Bordalo Pinheiro escreveu que “A Cutelaria Polycarpo é uma pequena maravilha, uma oficina modelo, pela novidade, pelo esmero e originalidade dos seus processos de fabrico, pela educação artística do seu pessoal”.
Cuteleiros contemporâneos
A herança do ofício no concelho faz-se notar tanto na cutelaria artesanal e de autor, como na indústria da cutelaria, sendo o polo de indústrias de cutelaria das freguesias de Santa Catarina e Benedita, um dos principais clusters mundiais do ofício.
No campo da cutelaria artesanal e de autor, ateliers como o Lombo do Ferreiro ou Paulo Tuna, The Bladesmith gravam a ferro e fogo o seu nome no sector sendo as suas facas as eleitas por chefs e restaurantes de topo em toda a Europa.
A arte de produzir facas com base na técnica ancestral é uma prática que foi recuperada no tempo e que tem, atualmente, como núcleos mais ativos Santa Catarina nas Caldas da Rainha, Benedita em Alcobaça, Verdugal na Guarda e Palaçoulo - Trás-os-Montes: cada faca é uma peça única, feita por quem domina a arte de domar o fogo, denominando-se como cutelaria de autor.
O cluster das cutelarias de Santa Catarina e Benedita
A criação da marca "Cutelarias de Santa Catarina e Benedita", em 2018, foi um marco significativo: a união de oito empresas do sector destaca o compromisso de afirmar a região como o principal cluster de cutelarias em Portugal e um dos cinco maiores da Europa.
Com 600 postos de trabalho ativos, o cluster da cutelaria produzida em Caldas da Rainha e Alcobaça é o “quinto maior do setor a nível europeu” e representa um volume de negócios de “35 milhões de euros anuais, dos quais 30 milhões são provenientes de exportações”
IVO Cutelarias, Nicul, Curel Cutelarias, Socutel, Lombo do Ferreiro, Ciol, JERO e ICEL são algumas das marcas mais prestigiadas de cutelaria da região.