O Céu de Vidro faz a ligação entre o Parque D. Carlos I e o Hospital Termal, destacando-se como uma enorme atracção das Caldas da Rainha.
Consiste numa belíssima passagem coberta por uma estrutura de ferro e vidro, decorada com um impressionante trabalho de ferro forjado, de que os candeeiros em forma de dragão são os exemplos maiores.
Um local essencial durante a época de ouro da história termal das Caldas da Rainha. O Céu de Vidro pertencia ao Clube de Recreio, uma instituição fundada em 1837, e era aí que a elite local exibia as suas boas maneiras.
Era uma vez nas Caldas da Rainha
"Termas sem casino são termas mortas, sem movimento e sem gente."
Assim se traduzia, no início do século XX, a importância que a componente lúdica desempenhava nas estâncias termais, proporcionando aos seus frequentadores a possibilidade de preencher as horas de ócio e, até, de uma recuperação mais acelerada, considerando o conjunto de actividades físicas e desportivas que decorriam ao ar livre.
Nas Caldas, apesar de um aspecto assistencial reforçado, seguia-se igualmente esta tendência. Assim, a Mata e o Parque ofereciam espaço aos banhistas para a realização de actividades lúdicas, a céu aberto, enquanto o Clube, sob um «Céu de Vidro», respondia às necessidades de socialização durante a época termal.
Criado em 1837, o Club de Recreio tornara-se desde então o ponto de encontro da sociedade que ia a banhos nas Caldas da Rainha.
A oferta de lazer correspondia aos gostos e hábitos das primeiras décadas de novecentos. Nos seus salões tinham lugar jogos de cartas, como o whist, o bridge ou o voltarete, de tabuleiro, caso do xadrez, gamão ou damas, com espaço ainda para uma sala de bilhar e uma biblioteca. Na sala de baile, onde a noite atingia o ponto alto, existiam dois pianos.
Na galeria central, que separava o gabinete do bilhar dos restantes espaços, coberta pela estrutura em ferro e vidro que lhe deu o nome, reunia-se a sociedade, lendo jornais, conversando, tomando chá e seguindo a velha máxima de «ver e ser visto».
O Parque, embora de acesso menos restrito que o Clube, encontrava-se igualmente sujeito a um conjunto de normas que deviam observar-se para o seu bom funcionamento. Durante o inverno os portões encerravam antes do anoitecer mas, na estação balnear, o período de abertura estendia-se até à meia-noite.
Para além das áleas e dos relvados, o jardim dispunha de uma carreira de tiro, um recinto de patinagem e áreas destinadas à prática de diversos sports, entre os quais a patinagem, o ténis, o cricket, a malha e o ainda incipiente foot-ball. Outro dos atractivos passava pela possibilidade de alugar um bote e remar, sob o arvoredo frondoso, nas águas tranquilas do lago.
As tardes de Agosto e Setembro eram animadas com música ao ar livre, executada por uma banda militar, normalmente a da Guarda Municipal de Lisboa. Durante duas ou três horas, todos os dias, os músicos executavam um repertório composto por marchas, valsas e sinfonias.
À noite, quando o característico clima caldense o permitia, organizavam-se festas de recreio ou beneficência, com entrada paga e regras de admissão mais restritas. Com a electricidade instalada Parque desde 1904, as iluminações eram o principal ex-líbris destes eventos.
Bem menos agitada, «povoada de grande variedade de árvores, com as suas ruas e carreiros atapetados de musgo» e «uma formosa alameda de plátanos», a Mata constituía outra grande zona verde ao dispor dos aquistas. Obra de Berquó, ali dispunham os convalescentes de maior serenidade para os seus passeios, entre o murmurar da vegetação e o silêncio das pequenas clareiras.
Por outro lado, a Mata era palco de alguns eventos significativos da época termal. Exemplo disso era hipódromo, uma vasta área perto da alameda principal onde se realizavam, todos os anos, diversas provas hípicas que constituíam um importante momento na vida social caldense.
Durante o Inverno, a Mata tornava-se um sítio bem mais bucólico, sob o céu nublado e o restolhar das folhas caídas. Por essa razão, fora da época balnear, os seus portões encerravam antes do pôr-do-sol.
Todavia, com semelhante rol de eventos durante a época de verão, não é de estranhar que o Club de Recreio, o Parque e a Mata constituíssem local obrigatório da sociedade caldense e dos seus hóspedes, fornecendo a maioria da oferta lúdica de que a vila dispunha.
Mesmo o cinema, que por aqui havia dado os primeiros passos no início do século, se encontrava instalado numa dependência do Hospital. Com efeito, surge em 1907 um pedido para a instalação de uma sala de projecção na Casa da Convalescença, propondo-se ao Hospital que ficasse com 10% das receitas obtidas com as matinées. Dois anos depois, o Animatographo Colossal instalado e em pleno funcionamento, exibia filmes «de grande sensação».
O Teatro Pinheiro Chagas, o Cyclo-Club e a Praça de Touros, a que se podem acrescentar os principais hotéis, eram os restantes pólos de animação na vila das Caldas.
A Foz do Arelho e outras relíquias naturais
A melhor alternativa aos programas habituais dos aquistas era a de fazer pequenos passeios aos arrabaldes da vila, como Foz do Arelho ou Salir, mas também a Óbidos ou Alcobaça.
A Foz do Arelho começava, entretanto, a atrair as atenções de um maior número de banhistas. Apreciada pelas «excelentes condições climatéricas» e pelas características da sua implantação, chegou mesmo a recomendar-se a instalação de um sanatório nas suas proximidades.
Nas proximidades, a Lagoa de Óbidos, «que se pode comparar com muitos lagos da Suíça, onde há lindos chalets» atraía igualmente o interesse dos visitantes.
Como se viu, era, apesar desta oferta mais pitoresca, em torno do Hospital e do Clube que se concentravam os principais eventos e diversões das Caldas. Mesmo que a vida do Hospital se sustentasse nas «qualidades e renome das termas e não no brilho das suas diversões», a verdade é que o «Céu de Vidro» e todos os que sob ele se distraíam, procurando esquecer as «agruras do reumatismo», se havia tornado há muito um símbolo do microcosmos social que aqui se formava durante a época termal.
Os tempos foram mudando e o centenário edifício do Club de Recreio permaneceu, depois de albergar uma efémera Casa da Cultura, longos anos abandonado. Hoje, sob a recuperada abóbada de vidro, mesmo que não possa reviver os velhos tempos evoca, ao menos, diante do velho Hospital que lhe deu razão de ser, o espírito da belle époque que, volvidos cem anos, se desvaneceu lentamente na memória desvanecida das termas da Rainha e da República.