Com 11 hectares, o Parque D. Carlos I é um luxuoso espaço verde da cidade das Caldas da Rainha que possui também uma luxuosa história.
Cerca de 1747 - era rei em Portugal D. João V, o conceito de espaço exclusivo de lazer é aplicado, surgindo nessa época uma zona claramente destinada ao passeio dos doentes.
No seio das profundas reformas que empreendeu no Hospital, D. João V, manda edificar a Casa da Convalescença e com e ela justifica a necessidade de aquisição de terrenos que serão destinados a essa nova funcionalidade.
No século XVIII surge um novo interesse pelo termalismo nas Caldas da Rainha: são feitas inúmeras análises às águas termais e discute-se a sua composição e indicações terapêuticas.
Também nesta altura começa-se a sentir uma certa mutação social que se viria a consubstanciar no século XIX com o nascimento da burguesia, que leva à alteração de usos e costumes e ao aparecimento de novos hábitos de convivência social.
É nesta conjuntura que se fundamenta a adopção do passeio, do lazer e do divertimento como novo elemento complementar da acção terapêutica, levando ao surgimento do Passeio da Copa, mandado construir pelo Administrador do Hospital Termal das Caldas da Rainha, Dr. António Gomes da Silva Pinheiro, na segunda metade do século XVIII.
O Passeio da Copa
O Passeio da Copa era um jardim tipicamente Barroco, de composição axial, muros de suporte e escadarias e que permitia ao doente ter um espaço de lazer, para passeios ao ar livre, durante a permanência para tratamentos no Hospital Termal.
Este projecto inicial viria a ser alterado em 1806 com a planta do novo Passeio das Caldas, que marcará o início do actual Parque e que corresponde, nos dias de hoje, à sua zona norte.
O século XIX irá conferir às Caldas da Rainha um entusiasmo socioeconómico sem precedentes. As visitas da família real tornam-se constantes, desencadeando dinâmicas de grande aparato social, colocando a vila nos circuitos turísticos nacionais e mais procurados e afamados, adquirindo o estatuto de Termas da Moda.
Acentua-se a componente lúdica do passeio, surge o Clube, onde se podia jogar, dançar e ouvir música, organizavam- se jantares campestres e piqueniques.
Mais do que simples terapia, as termas assumem-se como forma de lazer, levando ao desenvolvimento de novas infra-estruturas de apoio.
A construção da Linha do Oeste em 1887, símbolo distinto de modernidade, virá reforçar e ampliar este contexto.
As sucessivas direcções do Hospital Termal das Caldas da Rainha procuraram corresponder às exigências de novos públicos, em função de novos requisitos de carácter medicinal, social e assistencial.
O toque de um génio chamado Berquó
Em 1888, com a chegada do administrador Rodrigo Maria Berquó, inicia-se uma nova fase da história do Hospital Termal.
Rodrigo Maria Berquó começa por solicitar uma verba do orçamento de 1888-89 para proceder à transformação das vinhas existentes junto do Passeio da Copa, num Parque arbóreo com um grande lago.
A sua ideia não se fica por aqui e acrescenta a necessidade de estabelecer diversas formas de entretenimento – jogos, ténis, críquete, bola, tiro à pistola, música no coreto e passeios de barco no lago.
Berquó alargou o Parque, mandou construir o lago artificial, cuidou da vedação e do policiamento.
Para o alargamento do espaço ajardinado foi necessário utilizar o terreno de cultivo do Hospital, mas houve também necessidade de algumas expropriações que não deixaram de causar polémica.
A construção do Lago Artificial, elemento inovador, que em 1891 já estaria aberto, iria levantar o problema do seu abastecimento. A ideia inicial seria alimentá-lo com água termal, fazendo desta forma um aproveitamento dos excedentes de água dos tratamentos terapêuticos.
No entanto esta medida não seria suficiente, levando à aprovação de mais um orçamento suplementar para comprar tubagem de ferro fundido que conduzisse a água do depósito da mata para o estabelecimento balnear e Parque D. Carlos I.
E é assim que o novo Parque se torna uma exaltação ao sentimentalismo e ao naturalismo, à maneira do estilo paisagístico em voga por toda a Europa.
O século XX
Nas duas primeiras décadas do século XX, com a instauração da república, o parque foi quase votado ao esquecimento pelas sucessivas administrações do hospital.
A partir da década de 30 do século XX, há um retomar da atenção perdida pelo parque, agora local privilegiado não só pelos aquistas, mas também pela população das Caldas da Rainha.
Na segunda metade da década de 40, o melhoramento embelezamento do parque estão na ordem do dia.
Apesar do grande problema continuar a ser a escassez de verbas, a Associação de Defesa dos Interesses das Caldas em colaboração com a Administração do Hospital Termal das Caldas da Rainha, aborda a importância de incluir o Parque num plano de urbanização a ser executado pelo engenheiro agrónomo paisagista Caldeira Cabral.
O projecto terá início em 1948 e as obras prolongar-se-ão até 1951. Com este projecto retomam-se as formas mais regulares, são arrelvados espaços baldios, cultivadas sebes de flores variadas e coloridas, plantadas árvores criando jogos de contrastes de luz e sombra. Fontes e tanques, azulejos e bicas de cantaria pontuaram o espaço
O hospital passa a ter a sua própria estufa de flores, onde podia preservar as já existentes e desenvolver novas espécies.
O projecto incluía ainda o alargamento do Museu José Malhoa e a construção de um Restaurante-Bar, para substituir a esplanada, assim como a reparação do ringue de patinagem.
No levantamento botânico realizado em 2010 contabilizaram-se no Parque D. Carlos I, 157 espécies de árvores e arbustos, um berçário de carvalhos portugueses e outras espécies da flora mediterrânica original, algas, fetos, musgos, pequenas plantas avasculares e líquenes.