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Fado

Fado
O fado é a canção nacional de Portugal, captando a alma melancólica do país, mas também o seu lado animado e astuto. Segundo o prestigiado musicólogo Rui Vieira Nery, o fado surgiu no século XVIII em Lisboa, sob influência brasileira. 

No início do século XIX, Lisboa era uma cidade em plena transformação, na sequência das invasões francesas, das Guerras Liberais, do êxodo rural e dos primeiros passos da industrialização. A tudo isto juntava-se a recente independência do Brasil, uma colónia que, até há pouco tempo, tinha sido a sede da capital do reino.

Tal como aconteceu noutros locais no início do século XIX, Lisboa estava pronta para abraçar — e transformar — uma nova forma musical, tal como aconteceu, por exemplo, noutras cidades portuárias como Sevilha (flamenco), Buenos Aires (tango) ou Nova Orleães (jazz).

As modinhas luso-brasileiras, com os seus sabores coloniais e sentimentos mestiços, revelaram-se espelhos sensíveis de um império que se desvanecia na melodia.

O fado — esse território inexplorado — foi, segundo Nery, levado da taberna para o tratado. Não como alguém que o profana, mas como alguém que restaura a sua natureza multifacetada: música e mito, destino e construção, memória e invenção urbana.

O fado remonta ao século XVIII e início do século XIX, mas «não teve origem no Brasil». Foi, no entanto, fortemente influenciado pelas idas e vindas de pessoas e pela música e dança folclóricas brasileiras. Até ao final do século XIX, o fado era uma dança cantada!As modinhas luso-brasileiras, com os seus sabores coloniais e sentimentos mestiços, revelaram-se espelhos sensíveis de um império que se desvanecia na melodia.

E para compreender melhor o fado, é preciso compreender a Lisboa do século XIX: as pessoas que, com o início da era industrial, afluíram a Lisboa, e as que vieram do Brasil; as periferias dos bairros operários que surgiram nos arredores de Lisboa – a cidade que fazia fronteira com o campo.

O fado é uma canção que teve origem na classe operária. Com o surgimento do movimento operário, muitas letras de fado começaram a ser publicadas e surgiram os primeiros jornais de fado, como o «Guitarra Portugal» e outros.

O fado do século XIX teve origem nas festas; contava histórias e estava associado ao crime. É um fado de saudade, acompanhado apenas por guitarras e cantado nos «retiros» das tabernas — geralmente locais situados ao longo das estradas que ligavam a periferia ao centro de Lisboa — e nas casas de fado, onde «se tocava fado»! 

Na década de 1870, o fado começou a ganhar prestígio, passando a ser considerado «música chique» e a ser utilizado para fins políticos, enquanto as letras testemunhavam o próprio progresso do movimento operário.

Durante a Primeira República, serviu como arma de crítica política. No início do século XX, o fado modernizou-se! Em 1906, surgiram os primeiros discos com gravações de fado.

Os fadistas eram obrigados a possuir uma «licença profissional», um requisito que visava combater o preconceito de que o fado era cantado por pessoas menos abastadas. Alguns cafés e restaurantes, como o «Café dos Anjos», começaram a contratar fadistas, e estes passaram a atuar para um público que já não pertencia à mesma classe social.
 

Por volta da década de 1950, o fado cruzou-se com a mulher que viria a tornar-se um dos maiores símbolos de Portugal: Amália Rodrigues.

Quando Amália começou a cantar, os temas abordados no fado eram essencialmente a vida quotidiana, o amor, as adversidades da vida e as dificuldades do trabalho.

Foi em 1965 que Amália lançou um disco de 45 rotações intitulado «Amália Canta Camões».

Por volta da mesma altura, foi publicada uma edição do Jornal Popular, a 23 de outubro de 1965, na qual várias figuras do mundo literário e artístico deram a sua opinião sobre esta inovação, que, a princípio, era invulgar no fado.

Para ver mais reflexões sobre esta controvérsia, em 1966, Amália apareceu numa entrevista em que ela própria era a ré e os acusadores eram o público, julgando-a também pelo «crime» de ter cantado Camões e de ter deixado para trás o chamado fado «autêntico». Estupefata, Amália diz que não compreende a diferença entre o fado autêntico do passado e o fado que ela canta. Admite também que uma falha que vê em si própria é a falta de autenticidade.

Mesmo antes destas datas, Amália já tinha alcançado novos patamares. Em 1962, lançou o seu primeiro álbum com composições de Alain Oulman, intitulado «Busto», embora saibamos que Amália tinha, na verdade, começado a trabalhar com o compositor já em 1959. Este álbum é uma verdadeira surpresa.

Uma nova era no fado tinha começado oficialmente e, sem dúvida, uma nova era também na carreira de Amália.

Este álbum já dá a entender a iniciativa que se manteria nas décadas seguintes, na qual Amália interpretava as obras de poetas que faziam parte do seu círculo e que eram visitantes habituais da sua casa.

O génio de Amália com as palavras era notável, evidente não só no poema que escreveu e gravou, «Estranha Forma de Vida», mas também na forma como interpretava cada palavra. Amália, que tinha apenas o ensino básico, revelou-se uma poetisa de palavras simples, mas de significados e sentimentos complexos.

Amália desempenhou um papel fundamental na divulgação do fado pelo mundo e na sua consagração como forma de arte. O seu fado não conhecia fronteiras, fossem elas linguísticas ou culturais.

Desde o momento em que surgiu na cena artística e se tornou fadista, até à sua morte em 1999, Amália foi um ícone da cultura nacional que levou o bom nome do país, através do fado, aos quatro cantos do mundo.

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